Wednesday, November 11, 2009

Jornalismo é qualquer coisa...

Você lembra daquela vez em que eu tive que interromper minha manhã burguesa de domingo pra ir fazer uma matéria na perifa? E que fui pra casa da dona Neusa? Que até ajudei a fritar frango pra sempre? História aqui, caso tenha esquecido.

Pois é. Dona Neusa virou capa desta última edição da revista. Porque pessoas como ela somente agora entraram para o mercado de consumo e passaram a estar na mira das empresas. É a nova classe média brasileira: gente que subiu na vida, está com mais dinheiro, comprando bens aos quais antes não tinham acesso. O povo subiu na vida e agora é ele que manda. Íamos colocar presidentes de empresa na capa, mas optamos por botar o rosto de quem faz realmente parte dessa mudança no país. Adoro! Jornalismo é qualquer coisa... menos falta de emoção.


Reunir todo mundo no mesmo estúdio, no mesmo dia e na mesma hora para fazer a foto de capa foi a logística do milênio. Porque, né, são quatro famílias diferentes, cada uma vinda de um rincão de Sampa. E te falei que chovia? Pois sim. E que marcamos sete da tarde, horário ainda de pico? Como eles vinham dos seus trabalhos, tivemos que providenciar lanches. E maquiador. E cabelereiro. E motorista pra todo mundo. Corri uma maratona naquele dia. Jornalismo é qualquer coisa, menos monotonia.

Mas no fim nos divertimos horrores naquele estúdio. E ainda fizemos o vídeo dos bastidores da sessão de foto de capa. Com música de Friends ao fundo. Porque a gente sempre tem que colocar um toque de si nas coisas que faz. Jornalismo é qualquer coisa... menos impessoalidade.

Ei-los, os meus queridos personagens: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1153025-7823-EM+EPOCA+NEGOCIOS+DE+NOVEMBRO,00.html

Monday, November 9, 2009

Carta de Repúdio do Caco

Eu não ia falar, mas vou falar. Tô falando, hein? Porque como cidadão do bem, honesto e defensor da liberdade humana, não posso ficar calado.

Fiquei indignado até a minha quinta geração com o posicionamento da Uniban em relação à moça que foi escurraçada da sala de aula pelos colegas (se você desembarcou na Terra ontem, fique a par do caso aqui). Quem foi expulso pela universidade? A moça, Geisy Arruda, e não os colegas.

A moça, gente! Por "indecoro na vestimenta" e "proteção da moral do ambiente"? Indecoro, maluco? No século 21?? No Brasil? Também conhecido como "O" lugar onde as pessoas andam peladas e se esfregando pelos cantos?? Expulsa pelos colegas de maneira vergonhosa e animalesca por usar um vestido que chegava quase até o joelho? (eu já vi vestido muito menor do que aquilo e não na Augusta!)? Esse tipo de punição é medieval.

Uma universidade deveria ser o espaço para a pluralidade e para a riqueza de tipos e gêneros humanos. Um lugar feito para se pensar e discutir ideias. Inclusive sobre o que vem a ser bom gosto e mau gosto. Sobre moralidade e amoralidade. Boas maneiras e vulgaridade. Discutir como seres pensantes. E não agir de maneira ignóbil e brutal como fizeram esses futuros engenheiros. Futuros professores. Futuros médicos. Futuros administradores que sairão dos bancos daquela faculdade. Quizás também colocarão sob chibata suas futuras funcionárias ou colegas de trabalho. Meninas, previnam-se. Estamos na era medieval. Para não errar, vão vestidas de burca!

Thursday, November 5, 2009

Cartier-Bresson

"Por trás das lentes, a vida é uma dança"
(Cartier-Bresson)

O olhar generoso que Henri Cartier-Bresson tinha sobre as pessoas e seus entornos fazem dele, para mim, um dos melhores fotógrafos. Ever.

Exposição no Sesc Pinheiros, até 21 de dezembro. Recomendo muito.

Tuesday, November 3, 2009

O moço de blazer

O moço de blazer me olhou, olhou para mais três amigos andando comigo na calçada e não hesitou:

“E aí, meus caros!! Afim de levar uma bucetada na cara? Precinho camarada. É só entrar”

Rá! Adoro a Augusta. Lá tu ouve e vê coisas que desacreditaria. Em outros lugares frases assim pareceriam surreais. Ali, é simplesmente parte do contexto. O homem de blazer que nos ofereceu tal iguaria é host de um puteiro (bom, você não esperava que fosse o clérigo de uma catedral, né). E mestre em coesão textual e objetividade, como mostram as aspas acima, breves e diretas - uma aula de jornalismo, praticamente.


Eu e meus amigos tínhamos saído de um bar e nosso objetivo era chegar à Trash 80s, que fica por ali. E que, by the way, não trabalha com bucetadas na cara. Além de tocar sons bacanas dos anos 80, eles também tocam umas coisas trasheiras da época, fazendo jus ao nome. Foi ótimo. Dançamos muito.

Mas tenho que admitir que é meio estranho quando, lá por umas quatro da manhã, começam a tocar tipo Balão Mágico (guti, guti), Chacrinha (nunca gostei de sua voz catarrenta), e (oi?) Débora Blando. Não é à toa que botam essas músicas só lá pelas altas madrugas, quando as pessoas já estão bem colocadas na cerveja. A hora que começou o axé, foi a deixa para pegamos a carruagem e irmos embora, não é mesmo, Dani Mercury?

Saímos de lá com o dia quase amanhecendo. E desta vez subimos a Augusta de táxi.

Fazia mileanos que eu não ia na Trash. Várias vezes desisti na porta por causa da fila. Neste fim de semana, entretanto, não demoramos nada para entrar na balada. JAMAIS na história deste país eu passei na frente de qualquer lugar interessante que não tivesse filas em ziguezague. São Paulo em feriado é uma maravilha! Os lugares não estão infestados de pessoas, o trânsito anda, os restaurantes não estão cheios e, pelo jeito, tampouco os puteiros. É só entrar. Precinho camarada.

Thursday, October 29, 2009

Analogias

Almocei hoje com uma chef de cozinha bárbara. Estávamos em seu restaurante e, apesar de ser um almoço de trabalho, o papo foi bem informal e agradável. As entradas estavam ótimas, o prato também. Quando o garçom veio perguntar se quereríamos sobremesa, ela franziu a testa e respondeu, ligeira: "Claro!", com aquela entonação do tipo "mas que pergunta é essa? óbvio que sim!".

Ela piscou pra mim e disse: "A sobremesa é o gran finale de uma refeição. Um banquete incrível que não culmina numa sobremesa é igual a uma mulher bem vestida usando um sapato vagabundo".

Adoro.

Torta de côco com baba de moça, você está linda hoje. Vamos dançar?

Tuesday, October 27, 2009

Histórias não contadas

Monsieur Bernard me espera à porta do seu apartamento, no segundo andar de um prédio sem elevador. Ao lado dele me dá as boas vindas uma cachorra do tamanho de uma vaca malhada. Não gosto de cadelas. Das grandes, gosto ainda menos.

Entro no apartamento. Ele pediu que a entrevista fosse feita na casa dele porque não gosta de sair. Não gosta de ver gente. Não gosta da luz do dia. Não gosta de deixar a cadela sozinha. Monsieur Bernard é um homem cheio de não-gostares. Mas me recebeu com simpatia.

- Não. Não quero chá, Monsieur Bernard. Obrigado.

Ele, sim. Ele quer chá. Vai até a cozinha e prepara uma xícara enquanto conversamos trivialidades para quebrar o gelo. Vou entrevistá-lo para uma pauta em que ele é apenas um coadjuvante, não o personagem principal. Nem aspas provavelmente usarei. Mas olho ao redor, olho para aquele senhor em seus quase oitenta anos de idade, tomando um chá, com uma cadela ao seu lado e tenho a impressão de estar diante de um grande personagem. De um grande personagem e de uma grande dor.

Não sei bem de onde vem essa impressão. Conversamos durante quase uma hora sobre um assunto ligeiramente burocrático e, ao terminar, peço para ir ao banheiro. Para chegar, passo por um corredor cuja parede está cheia de fotografias antigas. Tudo tão antigo, tão velho, tão triste que tive certeza de que estava em um cenário de conto. Mas certamente não de fadas.

Monsieur Bernard explica as fotos. Ele com a mãe. Ele com o pai. Ele com amigos. Ele com primos. Paris, Nice, Veneza, Praga. Barcos, castelos, hotéis, cassinos. Ele um dia foi um bon vivant. Chegou ao Brasil provinciano da década de 40, fugindo da guerra, e ainda carrega o sotaque quando pronuncia os erres. Ele, filho único, ficou aqui. A família e os amigos, hoje todos mortos, lá.

Chego em uma fotografia maior, no final do corredor, distante das outras. Lá havia um altarzinho com uma Nossa Senhora e a foto de um rapaz de 40 e poucos anos sorrindo. Tinha olhos azuis, como os de Monsieur Bern.

“E este é meu menino”, me diz ele. “Morreu em 1986. Já faz tanto tempo! Mas é como se ele ainda estivesse aqui comigo”.

Entendi a entonação que deu em meu menino. Aspas imaginárias no ar. 1986. Do tempo em que se morria de Aids, penso. Monsieur Bernard me desperta uma mistura de simpatia, solidariedade e muita (muita!) pena: perseguido por nazis, filho único, pais mortos, sem família e com um luto que não vai terminar nunca mais. Sozinho como um prego. Ele e uma cachorra-que-parece-vaca.


Tenho vontade de saber mais sobre ele, mas prefiro não ser intrusivo. E, além disso, preciso ir embora. Uma lástima. Alguém que passa por isso tudo numa vida deve ter histórias interessantes para contar. Mas não creio que alguém o ouve. Ou ouviria. Para o mundo, Monsieur Bernard não passa de uma maricona velha e solitária.


Saio do apartamento. Olho ao redor e vejo tantos prédios. Quizás quantos outros Monsieur Bernard existem nesses apartamentos, cada vez mais frios, com cada vez menos gente e com cada vez mais animais fazendo as vezes de companhia. Histórias das quais poderiam sair livros, não fosse o fato de que a maioria das nossas conquistas e dores cotidianas não importam aos outros. Não valem livros. Não valem reportagens. Não são contadas. Na maioria das vezes a gente chora mesmo é no escuro.

Friday, October 23, 2009

Como as pessoas chegam ao meu blogue

As palavras-chave de internautas que deram umas googladas e caíram aqui.

“Anita ferrari dando pra cachorro”

(Tá dando pra cachorro como em “está muito bem comida”? Ou dando pra cachorro tipo “é adepta da zoofilia”? Neste estabelecimento não apoiamos zoofilia. Nem pedofilia, aliás. Se for pedo eu to denunciando, hein? 190. Tô com telefone na mão. Peraí. Quem diabos é Anita Ferrari?)

“Por que capricorniano fica sozinho”
(Magoei agora, hein? Não quero mais brincar. Nós, capricornianos, somos tão legais!)

“O que quer dizer ser caquiano”
(Ser caquiano é ser, ahm... como vou explicar? É ser sublime. É ser soberbo. Ser caquiano é igual a ter estilo. Ou tu tem, ou tu não tem. Não dá pra QUERER ser, sabe assim?)

“Frases de porra”
(Passe um dia comigo e tu vai ouvir um punhado delas)

“drama destino trocado”
(Tá procurando uma novela, minha senhora? Não trabalhamos com este produto)

“frases para amigos metidos e nojentos”
(Tem certeza de que são amigos?)

Todo viado tem dente encavalado
(hahahahaha... adoro. Toda uma homofobia contida na sabedoria popular. Você já ouviu falar em aparelho?)

“contactos msn de meninas de angola”
(Pedofilia correndo à solta pelos cinco continentes. Atenção para o "c" mudo do português de Portugal: charme!)

“bruxaria para juntar duas pessoas”
(Naja!)

“alguém sabe como fazer o molho do spoletto”
(Primeiro, que eu não respeito o Spoletto. Eles não fazem molho. Fazem "misturas" nojentas pra colocar na sua massa. E, segundo, não respeito quem VAI ao Spoletto. Aliás, não sei nem porque me dou ao trabalho de te responder. Você está me deixando confuso, pessoa!)

Tuesday, October 20, 2009

Dica do Caco

Se você gosta de Desperate Housewives e está em abstinência neste período de entressafra, quando a nova temporada ainda não estreou no país, dá uma olhada nesta paródia que a MAD TV fez sobre o seriado. Eu tive um riso descontrol total em pleno fechamento. Precisei sair da redação porque não conseguia mais parar de rir. O melhor são as piadas sobre o quanto a Susan é destrambelhada e o tamanho da testa da Bree (ela teve coágulos na cabeça um dia com certeza)!!

Mas acho que você só vai rir se for realmente fã da série. Ou então se estiver em fechamento, como eu, quando aí qualquer coisinha para quebrar a tensão se torna moito engraçada.


Monday, October 19, 2009

Sobre comida

Mamãe Caco e Papai Caco foram me buscar no aeroporto. A caminho de minha cidade paramos numa banca na beira da estrada que pertence a uma alemã de 185 mil anos de idade. Sempre paramos lá porque, segundo minha mãe, ela tem as melhores cucas (para os paulistanos que precisarem de tradução, clicar aqui).

- Mãe, tem de dois tipos. Qual será que levamos?
- Esta.
- Por quê?
- Pega as duas na mão. Tá sentindo? Como esta é mais pesada? É porque carregaram na manteiga e ficou muito gordurosa. Depois dá azia. Melhor pegarmos a mais leve.

Logo em seguida, com Papai Caco:
- Quer um refri? Ou uma cerveja?
- Não, pai. Tomei agora no avião.
- Nem uma latinha?
- Não. Tô SEM sede.
- Moço, vê aí uma latinha de Coca cola pro meu filho, por favor.

Moral da história: a relação entre membros de famílias italianas se dá basicamente por meio da comida. Isso talvez explique o fato de eu, ontem, ter passado o dia IN-TEI-RO às voltas com panelas, abóboras, carnes e bombons para preparar um jantar e uma sobremesa. E adorei. Não busque explicações. Apenas saboreie.

Wednesday, October 14, 2009

Viver para contar

Daí que eu fui passar o feriado no Rio Grande do Sul, com uma passagem comprada de impulso (tipo, dois dias antes de embarcar), sem conseguir avisar muitas pessoas, postergando algumas coisas que precisava fazer em Sampa. Mas a vontade de descansar um pouco falou mais alto.

Consegui fazer programas simpáticos e softcore com amigos queridos. Um deles é algo digno de registro. Fui convencido de, no sábado, ir pruma balada chamda “Aurora Boreal”. A festa era um open bar com espumantes da "Aurora" (pegou o trocadilho? Hã? hã?). E me interessei menos pelos espumantes e mais pela discotecagem anos 80. Achei meio estranho o fato de a festa ser no clube mais chique da cidade - daqueles onde os casamentos da high society acontecem. Foi só quando cheguei na frente do lugar que descobri que a festa era, tipo, “A” festa do ano da cidade. Ficamos na porta da buatchi com uma cara de "what's wrong with you guys?" Ou sou eu que fiquei crítico demais ou as pessoas perderam completamente a noção de ridículo. Gente, oi? É bebida liberada! Oi? É discotecagem anos 80! Pra que os paletós? Qual o contexto para os vestidos longos? De onde saíram esses saltos infinitos que chegam à lua? Bodei. Eu, meu sapatênis e minha camiseta-por-cima-da-camisa bodamos longamente.

Fomos, então, tomar drinques no Ferrovia – um outro bar simpá da cidade – onde coloquei dois anos de fofoca em dia com Lu, que está morando na Itália. Voltamos ao tal clube por volta de duas da matina e tomamos coragem para entrar no lugar. Eu disse para Lu que só entraria se fosse para dar risada das pessoas e conseguir boas histórias para contar. Como estávamos colocados num nível somente okay foi muito engraçado ver os "senhores fraques" e "senhoras longo", caindo de bêbados pelos cantos. Aos poucos os longos e os fraques começaram a ir embora, deixando a pista para nós. E dançamos até o dia clarear. Dançar também rende boas histórias, só que não daquelas de contar, mas daquelas de lembrar. Ainda bem. Porque não conseguiria contá-las. Voltei para São Paulo há dois dias e ainda estou com voz rouca.

Wednesday, October 7, 2009

Minha novela

Madrugada INTENSA no casarão do Cortiço, minha gente. Os meus vizinhos resolveram brigar, em alto e bom tom – às duas da manhã.

A história foi um drama digno de Maria-la-del-barrio-soy. Ele chegou essa hora em casa, bêbado. E ela se encarregou do chilique. Coisas do tipo; cara de pau, desgraçado, em casa-você-não-dorme e afins. Uma criança, claro, abriu berredo. E a ‘espôusa’, pouco discreta, continuou a ladainha dizendo que dinheiro pra comprar leite ele não tinha, mas pra se entupir de cachaça, sim. Levanta a mão quem já ouviu esse discurso em alguma novela. Entra em cena a sogra, só no sussurro, tentando apartar: “Parem, vocês dois! Daqui a pouco alguém chama a polícia!”. Juro que achei que a sogra era a
Elizabeth Savalla.

Novelão do milênio! Confesso: ouvi tudo. Confesso: ouvi tudo e fui até a janela do banheiro para ouvir ainda melhor. Confesso: ouvi tudo, fui até a janela do banheiro para escutar melhor e abria a boca de espanto quando um deles soltava uma revelação do tipo: "Você estava com AQUELA OUTRA, que EEEEU sei".


Bafos na madrugada: nós apoiamos. Torci para que os dois se pegassem no tapa. Mas depois de meia hora de berros os dois desistiram e foram dormir. Não houve tapas. Mas acho que tampouco houve beijos.

Friday, October 2, 2009

C'est fini

Finalmente. Vou desligar o computador com uma certa solenidade, pegar minha mochila e dar a semana por encerrada. Porque demorou, viu? Demorou para terminar a PIOR.SEMANA.EM.ANOS.

Isso é coisa dos astros, hein? De uns tempos pra cá passei a relacionar bad vibes com o movimento das estrelas e das marés, mesmo não entendendo nada do assunto. Misticismo é o primeiro sinal de decadência. Quando a pessoa está para ficar louca e não deu certo na vida, ela vira mística e fica mesclando todas as crenças que ela viu e ouviu na vida. Batata. Então vamos cantar pro corpo subir? Despachar a semana pra Ogum? Botar a folhinha de calendário na boca de um sapo? Nos benzer com arruda ou sal grosso?


E para completar a semana zicada, Rio foi eleita a sede das Olimpíadas. Ó! Morri. Ninguém mais trabalha neste país até 2016, né? Para que trabalhar quando se pode viver da lavagem de dinheiro que, se pá, já até começou. Superfaturamento de obras dando os ares da graça enquanto neguinho comemora o resultado nas ruas. Digo, nas praias. Digo, nos morros. Ok, não falarei mais sobre o assunto porque terei de deixar meus modos de Lorde e partir para a indelicadeza.

Só com muito sal grosso para aguentar essa semaninha e esse país. Ainda bem que a semana, pelo menos, terminou.

Wednesday, September 30, 2009

Tunts-tunts

Te falei que malho num porão? Num porão sem janelas? Pois é. Você entra por uma recepção, desce um lance de escadas eLorme e cai dentro dessa sala de malhação. Minha ‘cadimía é assim.

Nada hype.
Nada elegante.

Nada bonita.

Altamente claustrofóbica.

Altamente escura.
Altamente infestada de bactérias.

As pessoas que malham lá são umas figuras meio bizarras, assim como os funcionários. A mulher da limpeza, para você ter uma ideia, é a cara da Rosário, a empregada chicana da Karen Walker. Eu, medo.


A rotatividade dos professores, por sua vez, deveria ser estudada nas escolas de administração. Só este ano eu tive três – para você ver o quanto alegre e gratificante é trabalhar naquele pardieiro. Eles ganham um extra por insalubridade, certeza. O mais recente professor é o Moisés, de quem falei neste post aqui, quando sem querer eu chamei-o de Noé.

Então hoje de manhã o Noé, digo, Moisés veio me importunar.

- O que você está ouvindo, cara?
Eu estava ouvindo uns tunt-tunt cujo nome da banda OU da música eu sequer sabia. Vergonha de ouvir tunt-tunt-sem-nome, mas é que eles atiçam a serotonina e dão aquela animada. Enfim, o que ele queria mesmo era fazer eu tirar os fones e conversar. Aquela minha sina de ter ouvidos com vocação para urinol:

- Tô com mó sono hoje – ele me diz – Tive aula até tarde ontem.
Aula? Me-do. Ele ainda deve estar na faculdade, na melhor das hipóteses. O que significa que eu sou treinado por alguém que ainda está aprendendo a diferenciar a batata da perna de um pomo de adão. Vou me arrepender depois, mas não me contive:

- O que tu estuda?
- Faço Objetivo.
Meu caralho de asas! Supletivo, cer-te-za. Porque com aquela idade, né? Só o supletivo salva. Ou ‘seje’: meu treino é passado por uma pessoa que está aprendendo anatomia básica (pâncreas e vesícula biliar), reino animal (anfíbios e mamíferos) e por aí vai. Já pode ser presidente da república ou ir pro Ministério do Lula, gente! Ele continua (atenção para o discurso que segue):

- Porque, você sabe. Saio da escola às dez horas. Aí chego em casa, converso um pouco com a mulher sobre como foi meu dia, levo o cachorro pra fazer cocô, e quando eu vejo já é meia-noite.

Vamos brincar de “encontre os erros na frase acima”?

Erro 1: ninguém sai da ESCOLA depois dos trinta anos de idade, nié? Escola, maluco? Escola?

Erro 2: nossa relação é estritamente profissional. Eu pago, vou para a academia treinar e eu vou embora. Se a vida dele está um tédio de morrer, eu não sou obrigado a ouvir. Tipo: mesmo. Saber que a rotina dele é tão saborosa quanto um pedaço de tofu me deixa desgostoso.

Erro 3: a não ser que você tenha um grau de intimidade pelo menos de nível dois com a pessoa, jamais se menciona a palavra cocô numa conversa. Jamé!!!

Erro 4: fecha a boca e me deixa malhar, né? Ouvindo o meu tunts-tunts incompreensível – que, ainda assim, é a melhor coisa a se ouvir dentro daquela ‘cadimía.

Monday, September 28, 2009

Poeira

Chega uma hora em que: ou tu arruma o teu quarto, ou então tu bota fogo na bagunça e começa a vida de novo. Como os isqueiros andam em falta em casa, tirei o finde para fazer uma arrumação geral no meu.

Tenho um cesto grande que ganhei há uns quatro anos, logo que me mudei pra Sampa. Ele parece um baú. Comecei guardando nele as bugigangas que não usava mais. Tipo, se alguma coisa estava atrapalhando, ia pro cesto. Incomodou? Vai pro cesto? Tá estorvando? Cesto. E nunca me preocupava em arrumar as coisas lá dentro. Decidi, então, começar a arrumação por lá. E foi quase como abrir um portal do tempo.

Encontrei preciosidades que não lembrava mais existirem. Em algum momento achei que fosse importante guardá-las e ficaram lá. Sou campeão em guardar bugigangas porque sempre acho que elas me serão úteis um dia. E é batata: se eu invento de jogar qualquer coisa fora, no dia seguinte eu vou precisar dela com TODA a ABSOLUTA certeza.

Havia, por exemplo, um palm top que nunca soube usar (até hoje sou adepto dos post its). Encontrei revistas várias. Blocos de apuração. Blocos e blocos e blocos. E fitas, do tempo em que se gravava entrevistas com fitas. O meu livro do curso de alemão. Polígrafos sobre as teorias de Wittgenstein, quando fazíamos um curso de filosofia. Dentro do polígrafo, o melhor: bilhetes infames que Beta e eu trocávamos durante a aula. Tinha lá também o DVD de formatura que eu nunca sequer assisti (DVD de formatura só perde para gravação de ecografia, de tão aborrecido que é). Havia o Eurail, de quando viajei a europa de trem, bilhetinhos que recebi, canetas bonitas sem tinta, documentos antigos. Não sei como cabia tanta coisa dentro do baú! Joguei algumas delas fora. Outras eu mantive porque não tive coragem. Talvez jogue fora na próxima arrumada. Enfim.


Depois de vários dias de clima chato e frio nesta terra da garoa, tivemos um fim de semana bonito, anunciando a primavera. E primavera é isso: é tirar o pó das coisas, jogar fora aquilo que só serve para fazer peso, arrumar um pouco a bagunça, sacudir tapetes e, sobretudo, abrir as janelas. Para encher a casa de sol.

Pressinto um bom verão pela frente.

Tuesday, September 22, 2009

A perda do ano

Estou aqui morrendo de desgosto. Porque meu chéfis vai embora para todo o sempre. Por mais estranho que isso possa soar, em se tratando de relação com seu chefe, estou achando uma perda irreparável. Sério.

Já nos primeiros dias no meu novo trabalho ele me disse: “olha, não sou chefe twitter que fica pentelhando ‘o que você está fazendo agora?’. Me entregue as matérias dentro do prazo e tá tudo certo”. Oi? Morri agora. Beijos.


Um ótimo exemplo de como ele é legal aconteceu quando fui fazer matéria na China. Fui visitar uma montadora e minha pauta era dar os bastidores de como funciona uma empresa chinesa. Só que...

Ninguém na China INTEIRA entendeu que eu queria falar com os trabalhadores. Eu pedia: “quero conversar com os blue collars”. E os assessores davam uma de abobadinhos do debate, fingindo não entender: “Não, imagine. Fale com esse diretor aqui, ó, muito melhor”.

Pô, eu sei o que é melhor pra minha matéria. E, no caso, é entrevistar gente de verdade, e não diretores treinados para falar com imprensa, que pintam o mundo em cor de rosa tão logo avistem um gravador.

Depois passar dois dias insistindo eu cheguei até o hotel quase tendo um AVC e liguei pro chéfis surtando: “Os chineses estão me bloqueando, não temos matéria, não temos personagens, não sei o que eu faço, não sei como funcionam as coisas aqui, eu dependo dos tradutores e da assessoria”.


E tem a polícia, né? Num país onde o cerco à imprensa é ferrenho, não é legal brincar de transgredir. Todo um pavor de me prenderem e me levarem carpir plantações de arroz até os 80 anos. Já me vi voltando ao Brasil de bengala e sem reconhecer ninguém porque, óbvio, catarata nos dois olhos.

Ao invés de me botar ainda mais meda-pânica-horrora, ele respondeu:

“Cara, na boa. Se você não conseguir o que tínhamos pensado, tudo bem. Faça o que puder. Eu sei que você vai voltar com um material legal”.

Se você sentiu um tremor aqui do outro lado do mundo, era eu largando dois mil quilos de peso nas costas, lá na China. Aliviei. Então todo calmo, todo paciência e todo paz e amor, eu elaborei um plano malicioso.

No dia seguinte teve um almoço para a imprensa estrangeira na cidade. Eu estava convidado - mas fugi. Fugi, como em: entrei no salão de festas para marcar presença, cumprimentei as pessoas, despistei o tradutor que também atendia outras pessoas e saí à francesa. Botei um gorro (para disfarçar os cabelos claros), joguei um óculos escuro (pra esconder a ocidentalidade), e saí caminhando uns bons quinze minutos até chegar na frente da firma. Encontrei os peões almoçando em barraquinhas parecidas com as de pastel de feira.

Como eu já tinha passeado pela cidade de tarde eu sabia que meu visu ia causar horrores. Tirei o gorro, tirei os óculos, arregacei as mangas para mostrar os braços e a galera super começou a me fitar: o ocidental de cabelo claro e pelos nos braços! Alf, o ETeimoso. Porque nessa hora você PRECISA acreditar que é o Alf. Comecei a sorrir, abanar e dar ois. Até que ouvi um “Hello, how are you”, em inglês sofrido. Vinha de um jovencito debruçado sobre uma tigela de sopa. Fisguei. Minha estratégia deu certo: alguém que conseguisse conversar comigo sem precisar de tradução.

A próxima coisa que sei é que eu estava sentado numa cadeira de plástico, comendo um miojo muito bizarro e falando com três fulaninhos que trabalhavam na firma. Que abriram o coração pro Caco: ganham 600 reais por mês, trabalham 12 horas por dia, dormem em alojamento, etc, etc, etc. Eles até desenharam no meu bloquinho como se escreve o nome deles em chinês (oummm). Já me fazendo dono da feira, peguei a câmera e fui filmar um pouco mais adiante. Quando ouço um “psiu” eu tive certeza: algemas e campos de arroz. Até os 80 anos.

Bobagem. Era um outro metalúrgico querendo saber se eu precisava de ajuda para filmar. De novo: oummmmm!!! Eu-coração-china. Assim como as autoridades têm uma nóia absoluta com controle de informação, as pessoas comuns têm algo de inocente, de ingênuo, de puro. Essa foi a impressão mais legal que eu trouxe na bagagem. Além de, claro, uma matéria decente.

Bom vamos logo concluir a história, que ela está ficando muito longa. Um bom chefe é aquele que sabe tirar o melhor proveito das pessoas. Para as que precisam de empurrão é aquele que motiva. Para as pessoas loucas (oi!) e ansiosas (oi-oi!), aqueles que sabem dar aquela controlada básica no surto. E, com isso, extrair deles um bom trabalho. Lembre-se disso quando for chefiar alguém, ok?


Enquanto isso, aceito os pêsames.

Friday, September 18, 2009

Sobre símbolos e tradição

Na nossa redação somos quatro, os gaúchos. Como estamos na Semana Farroupilha, nós nos organizamos e trouxemos chimarrão para não deixar a data passar em branco.

Achei muito digno da parte do restante do grupo, composto basicamente por paulistas, participar da roda de chimarrão e fazer sua apreciação: oi, isso é amargo! Oi, gostei. Oi, isso é quente demais, como vocês conseguem? Oi, verdade que vocês tomam isso na praia? Oi, até que nem é tão ruim.

Para quem nasceu tomando chimas, chega a ser engraçado ver a reação das pessoas sendo apresentadas aos códigos do chimarrão pela primeira vez. Algumas mais curiosas:

* Uma das pessoas, olhando para os aparatos: “Por que vocês chamam esse troço de“bomba” e não simplesmente “canudo”?”

* Outro, mexendo na erva: “Como vocês chamam essa coisa verde? Erva? A gente vai ficar doidão?”

* Um queimou a língua: “Existe alguma versão gelada para isso?”

* E teve quem deu um gole e achou que já tinha que passar para a outra pessoa. Não, minha gente, não se passa chimarrão adiante depois de UM gole. Tem que tomar tudo e zó DEPOIS dizzo, devolver a cuia para a pessoa encarregada da água. É zuper fácil e zuper simples.

Eu até nem sou um grande entusiasta da cultura gaúcha. Olha pra minha cara. Tenho lata de ser tradicionalista? Não, né. Pelo contrário. Acho uó. Odiava ir para a escola vestindo bombacha, bota e lenço durante a Semana Farroupilha – sim, éramos obrigados, com a pena de perder ponto.


Mas vivendo fora da nossa terra natal a gente fica um pouco menos rigoroso nos julgamentos e mais vulnerável a alguns símbolos. É igual a brasileiro quando se encontra num país estranho: dois minutos depois de se conhecerem, parece que eram vizinhos de infância pelo simples fato de falarem a mesma língua.

O chimarrão me fez lembrar as pessoas sentadas no parque da Redenção, em Porto Alegre, no domingo de tarde. Lembro dos chimas que tomo antes do almoço quando estou na casa dos meus pais. Recordo das longas rodas de conversa na casa de amigos. E isso tudo me dá um pinguinho de nostalgia. Mas depois passa.

Tuesday, September 15, 2009

Mudanças

Tem momentos na vida em que é importante acreditar que é para sempre.

Começa na infância. Acreditamos que nossos pais estarão conosco pro resto da vida, nos protegendo e provendo. Somos frágeis, afinal. E, para lidar com nossa fragilidade, é fundamental crer nisso.

Essa crença passa, depois, pelas amizades de escola. Que são incríveis. E vocês passam por momentos muito importante juntos e são inseparáveis: escola, inglês, natação, escolinha de vôlei à tarde.


Ocorre também durante o primeiro amor. Aquele que você tem certeza absoluta: não vai ter fim. Mal cabe ali, dentro de ti. É óbvio que ele será inesgotável por todos os dias da tua vida.

Mais tarde acreditamos que será para sempre a juventude que nos faz sentir com o mundo aos nossos pés. Acreditamos que temos todo o tempo à nossa frente.


Será definitivamente assim pelos séculos dos séculos amém: as amizades, a juventude, a proteção, os amores e a elastina da pele.

E é importante acreditar.
Isso dura até o dia em tu acorda, olha pro lado e... surpresa! Tu vê que boa parte das coisas que tu acreditava serem eternas terminou. Aí começa um outro estado de ser: aquele em que você aceita o efêmero.

Você olha para seus pais e percebe que eles ainda estão lá, sim. Mas velhinhos. Mais avós do que pais. Mais dependendo de ti do que tu deles. E estão longe de serem super heróis que um dia eles foram para você.


Olha para o lado e vê que começaram também tuas primeiras perdas, as definitivas. Aquelas físicas, de quem morre, e também aquelas abstratas, das ideias nas quais tu um dia acreditou e que hoje não te dizem nada.

Tu olha para dentro de ti e vê que o primeiro amor passou. Ele se transformou num sentimento mais sereno. Ou então acabou totalmente e veio outro depois dele. E outro ainda. Ou não veio nenhum. Mas o sentimento primeiro, aquele lá, terminou.

Você olha para os seus amigos de escola e não entende o que aconteceu com eles. Ou será que foi contigo? Porque parece que vieram de planetas distintos. Um deles virou vegan e foi viver de luz no Atacama. Outro, pai de quatro filhos e desempregado. Um terceiro montou o próprio negócio e só pensa em enriquecer e ganhar dinheiro. Vocês hoje não têm nada em comum que sustente qualquer coisa mais profunda do que um “oi, tudo bem?”

Você também se pega dizendo adeus para as pessoas que ama porque precisa partir em busca do teu próprio espaço. E outros partem da tua porque precisam de espaço.

Tem momentos na vida em que precisamos acreditar que é para sempre. Por que é isso que nos faz ter fé no mundo, nas pessoas, em nós mesmos e no caminho que temos pela frente. Isso nos faz acreditar que vai dar certo. “Pra sempre” é um apoio emocional muito eficaz. Por isso que as pessoas mentem e nós nos mentimos a nós mesmos. É uma mentira consensual, para o nosso bem.


Mas tem o dia em tu descobre que não é assim. E este momento em que você começa a aceitar o passageiro é um divisor de águas. É justamente graças às mudanças que o teu mundo se torna melhor. Você caminha. Fica mais maduro. Não se entedia. E, principalmente, cresce. Quando morre a certeza do "para sempre", o que faz a gente segurar a barra é a certeza do efêmero. Aceitar que as coisas mudam é um jeito mais realista de você enfrentar as fases ruins, ter fé no mundo, nas pessoas - e no caminho que tem pela frente.

Friday, September 11, 2009

Feriado em revista

O meu feriado reservou acontecimentos bastante imprevisíveis. Foi tão bom que queria ter durado mais tempo. Falando jornalisticamente, teria sido um bom cenário de pautas. De três diferentes histórias, sob diferentes pontos de vista, relatando diferentes situações vividas. Em diferentes publicações. Algumas onde poderia publicar.


Revista Gula

Onde comer e almoçar bem num domingo de chuva no Rio

Porque domingo choveu e, mesmo assim, fizemos um programete bacana que incluiu comer coisas tipo queijo coalho com melado, pastéis de couve com bacon e milk shake de açaí.


Viagem e Turismo

No Rio, vá onde cariocas vão

Embora seja essencial visitar algumas coisas turísticas quando se vai a algum lugar, não sou muito fã deste tipo de programação. Como já fiz programas assim nas outras vezes em que estive no Rio, tivemos tempo para algo mais caseiro e roots. Ter um nativo querido por perto - no caso, uma família inteira de queridos - te faz ter uma impressão diferente de um lugar. Neste caso, uma impressão ainda mais legal.



Veja Rio

Os impactos da lei seca na cidade

Fode um pouco a noite porque, né? Se tu tomar dois goles de qualquer coisa, o etilômetro (guardinha Roberta nos explicou o nome correto do bafômetro) acusa. Helô-ou. Lei Seca no Rio é ‘O’ erro. Uma cidade que tem Rocinha e Vidigal deveria ficar mais atenta em controlar a violência e o tráfico, e não ficar atrás de gente de bem, que paga imposto. Viu? Já estou pronto para ser carioca. Só falta fazer uma passeata na praia de Ipanema pedindo a paz.


Nova

Dez dicas infalíveis de chantagear um guarda usando seu par de pernas

A personagem que ilustra a matéria é a biscate que, quase pelada, assediava um guarda para que ele não a multasse. Foi pega dirigindo alcoolizada. Parte do plano não deu certo porque eles acabaram retendo a carteira e o carro. Mas que ela conseguiu uma carona pra casa, ah conseguiu. Não sei como precisou agradecer por isso depois.


Saúde

Resfriado: não deixe ele te derrubar

Descubra como se divertir mesmo de nariz entupido. Os milagres de uma bala de gengibre. As boaventuras que trazem o sol. E os efeitos de uma cachaça de banana sobre o ceu cérebro com dor.


Vida Simples

Como levar a vida numa boa

Um peixe que você come, uma areia que você bota embaixo dos seus pés, umas risadas que você dá e um sol que você pega são suficientes para viver. Ninguém aqui precisa de muito mais do que isso. Coloque a mão na consciência e questione sua vida yuppie, de trabalho árduo. Questine o dinheiro que você gasta com coisas supérfluas. Questionou? Chegou à conclusão de que seria melhor largar tudo e viver na praia? De agricultura de subsistência? Muito bem. Agora volte ao seu trabalho e deixe de besteiras.


Contigo I

Vergonha alheia nos telejornais

Sábado à noite encontramos na balada um apresentador (que eu não vou dizer quem é). Estava rolando uma apresentação legal de um grupo de samba de raíz e galera estava super dançando e super sambando e super fazendo coreografias em grupo – eu adoro coreografias coletivas. Todo mundo agora acionando o modo vergonha alheia comigo. Vamos lá? “On!” O tal jornalista encheu tanto o cotovelo de trago que chegou ao ponto de: subir no palco cambaleando, pedir o microfone ao vocalista e cantar duas músicas. Que ninguém dançou. E cuja letra ninguém sabia. E sem palmas no final.


Contigo II

Traição nos telejornais

Cena Um: ainda durante a balada vimos esse mesmo apresentador (não teime, NÃO VOU DIZER QUEM É) tentando dar uns malhos numa moçoila não exatamtente bonita e, o que é mais importante, não exatamente sua esposa. Cena dois: corta para horas e horas depois, já altas madrugadas, em um outro canto da cidade, em outro contexto, onde paramos para comer algo. Com quem cruzamos? Com o dito cujo de novo, comprando algo na padaria (oi? camisinhas não são vendidas em padaria?). Vá procurar uma farmácia e deixe as pessoas de bem comerem sanduíches em paz (mais uma passeata para organizar: pela família e pelos direitos dos cidadãos de bem). Quem vai escrever um e-mail anônimo para a mulher dele explicando a situação? Eu fiz minha parte contando o que eu vi.


Revista Realidade (um ar "vintage" na listinha)

O pais à beira de um novo caos aéreo

Podíamos relatar a saga de três repórteres na ponte aérea, cada um embarcado num voo diferente.


Camis: duas horas e meia voando do Rio para São Paulo, numa viagem que demora 40 minutos. Com aeroportos fechados, não sobrou lugar para pousar e o avião deu aqueles sobrevoos intermináveis em círculo. Chance de desastre: 30%. Ah, sim: dentro de uma zona de turbulência. Chance de desastre: 50%. E tendo que pousar em Congonhas. Chance de desastre: 70%. E, detalhe: com chuva. Chance de desastre: ei, você soube da tragédia?


Mi: sobrevivente de lost. Cinco horas presa numa aeronave. Três horas esperando decolar do Rio. Uma esperando autorização para estacionar em São Paulo. Uma voando. Teve vontade de pular no pescoço de pessoas prevenidas que levaram comida. As vantagens de você ser farofeiro nesta vida: um sanduíche de presunto que você joga na sua mala de mão cai super bem em situações imprevistas, como essa.


Caco: a palhaçada comigo foi a mais sem explicação lógica desta vida. Chamaram para embarque com uma hora de atraso. Colocaram a gente naqueles ônibus que te levam para um avião estacionado no meio da pista. Fizeram a gente esperar meia hora neste ônibus parado no meio da pista, ao lado do avião. Não abriram as portas pra gente descer e embarcar. E depois de meia hora o busão deu meia volta e retornamos ao saguão. Embarcamos somente uma hora depois. Alegaram que fazia muito vento. Muito vento. Tanto vento que era arriscado que a escadinha do avião saísse voando. Tu percebe que mora no país da piada pronta quando a única coisa que sai voando de um aeroporto é uma escada.


Folha de S. Paulo

O dia em que São Paulo parou

Cheguei em Sampa três horas da tarde. E fez-se o caos novamente. A cidade ficou num breu, como se fosse noite e, em seguida, caíram açudes de água. Eu, lógico, com toda a sorte que existe neste mundo do meu lado, estava dentro do táxi, sendo levado a remo pra Globo. Duas horas e meia depois, o motorista ainda estava NO MEIO DO CAMINHO. Sorte a minha que no meio do caminho não tinha uma pedra, mas a minha casa e um chefe muito compreensivo que disse que era melhor desencanar de lutar contra a natura. Então com as bênçãos de chéfis, peguei minha mochila com dignidade, paguei a fortuna que me cabia pagar ao taxista balseiro, saltei fora, e fui pra casa. Eram seis horas da tarde de terça-feira.

Meu feriado, por força maior, acabou sendo prolongado, como eu queria. Mas não do jeito que eu queria.

Friday, September 4, 2009

Feriado

Sexta-feira. Véspera de feriado. 7h da tarde. Depois de um dia inteiro de vai-e-vem de e-mails, sobre quem passa na casa de quem, sobre que horas ir para o aeroporto, sobre fazer check-in online e sobre previsão do tempo, tudo pareceu se resolver.

Então salta um e-mail de Camis:

"Beijos, meninos. Qualquer dúvida, me liguem. A mala é: roupa de praia, roupa de bondinho, roupa de bar e roupa de night (no Rio, todas elas se confundem bem)."

Começamos a falar agora sobre diferenças entre Rio e São Paulo ou deixamos para fazer isso quando voltarmos e estivermos andando pela cidade de sapato e camisa fechada?

Wednesday, September 2, 2009

Stop crying your heart out

Todos já tivemos na vida algum relacionamento que nos foi prejudicial. Se você não teve, desculpe o mau agouro aí, mas vai ter. É uma lei da natureza, assim como ter que perder os dentes de leite.

Falo de relacionamentos amorosos, sim, mas algumas vezes também acontece com amigos. São o que eu chamaria de "relacionamentos tóxicos". Eles te fazem mal. Mais te dão dor de cabeça do que alegrias. Mais te deixam deprê do que feliz. Mais inseguro do que à vontade. Mais ansioso do que calmo.

Não é que um dos dois seja uma alma insensível sem coração. Não. Individualmente, vocês são uns amores. Amáveis, divertidos, simpáticos, educados e do bem. Juntos, um desastre. Os temperamentos são incompatíveis. As ansiedades, os projetos e as propostas de vida também. Nada dá certo. Vocês brigam. Discutem. Não se entendem jamé. É difícil, porque vocês se gostam (eu disse “se amam”?) e por isso tentam de todos os jeitos: fim de semana na praia, fim de semana no campo, fim de semana trancados em casa pra ver se resolve. Não resolve. Não dá para ficarem juntos.

Esse tipo de pensamento me ocorreu porque eu estava ouvindo a música “Stop crying your heart out”, do Oasis, no player. Ela toca no final do filme "Efeito Borboleta", que trata mais ou menos disso que falei acima. Não curto muito filmes de ficção, mas deste eu gostei.


O casal de protagonistas se conhece numa festa quando crianças e, mais tarde, se apaixonam. Ele tem o poder de voltar ao passado e tentar fazer o destino tomar um rumo diferente. Por isso, quando alguma coisa ruim acontece, ele volta e tenta mudar. Mas não importa qual seja o caminho tomado, os dois sempre se dão mal juntos. Se eles fizerem assim, ele perde as duas pernas. Se fizerem assado, ela o trai com o melhor amigo. De um outro jeito ainda, ela morre. Um inferno. Ele descobre que a única saída, enfim, seria nunca ter feito a guria se aproximar dele.


Você assistiu? Se sim, continue lendo. Se não, pule o próximo parágrafo porque eu super vou contar o final.

Modo Spoiler: ON! (estou avisando, hein?)

Então ele volta ao dia em que se conheceram, quando crianças, e diz a ela que não quer ser amiguinho, falando algo como “Não quero nunca mais te ver, vai embora daqui”. E ela vai. Pra sempre. (começa a tocar a música do Oasis) Passa o tempo e, anos depois, ambos se cruzam numa rua movimentada de Nova York e não se reconhecem. Fim do filme e começo de lágrimas. Na lista de finais mais tristes, para mim este está nos Top 10. Encontrei a cena no Youtube. Se quiser, está aqui (dublado em espanhol, o que é meio uó, mas vale a intenção):
http://www.youtube.com/watch?v=DsHlAq2AXnE&feature=related

Modo Spoiler: OFF


Separar muitas vezes é o melhor modo de se manter um pouco de dignidade. Você tem que deixar ir embora porque de qualquer jeito vai dar errado. É o que o carinha faz no filme. É o que a gente tem que fazer na vida. Tem que deixar ir embora o que te faz mal. Cortar totalmente. Assim como se corta o McDonalds da dieta quando o colesterol está alto demais e prestes a nos fazer explodir.

Monday, August 31, 2009

Eu-já

Óbvio que eu não ouvi o despertador tocar. Óbvio que saí de casa aos trancos e barrancos. Óbvio que fiquei me culpando por não ter ido dormir mais cedo. Óbvio que vou me atrasar para tudo nesse mundo. São 8h da manhã e minha vida já está um caos.

No caminho da aula vi um jovem socorrendo um velhinho que tinha caído no chão. Não pude fazer nada porque estava dentro do ônibus. São 8h30 e eu já estou morrendo de pena de alguém.

Um dos professores de italiano apareceu para dar aula vestindo uma calça de moletom. Calça. De moletom. Pra dar aula. São 9h da manhã e eu já corei de vergonha alheia.

Na saída da escola, uma colega parou ao meu lado no semáforo. Como eu não estava afim de papo, desviei DOIS QUARTEIRÕES do meu caminho convencional para não conversar com ela. Fiz minha má educação do dia. São 10h30 e eu já corei de vergonha própria.

Tão logo pus os pés na editora, o alarme de incêndio soou. Desci todos os lances de escada do mundo junto com todas as pessoas desesperadas do mundo só para depois descobrir que o tal alarme disparou sem querer. São 11h30 e eu já quase morri de susto. E depois de raiva.

A redação passou por uma reforma no espaço físico durante o fim de semana. Eu agora sento num lugar diferente. É meio-dia e me sinto com labirintite aguda porque tudo parece fora de lugar.

Eu-já tanta coisa hoje. E não são nem duas da tarde.

Bom dia, segunda-feira!
Bom dia, semana.

Friday, August 28, 2009

Consultório sentimental do Caco

O super poderoso Google vem me informar que alguém chegou ao meu blogue com a seguinte dúvida existencial:

“Que tipo de exercicios eu posso dar para uma pessoa que nao consegue ajuntar com outra?”

Seguinte. A vida tá difícil pra todo mundo, fia. “Ajuntar”, nos dias de hoje é complicado. Mas Caco ajuda.

Primeiro: antes de tudo, vamos deixar as coisas às claras. Você está usando terceira pessoa para falar de si, né?! Essa história de "uma pessoa quer ajuntar" ou "tenho uma amiga que tá querendo isso ou aquilo" não convence. Caco não nasceu ontem. Portanto, vamos assumir logo que essa pessoa é você. A partir disso fica mais fácil reverter a situação.

Segundo: vamos camuflar essa baranguice. Um xampu que você passa no cabelo, um Armani que você joga no corpo, uma limpeza de pele que tire esses cravos horrendos da cara e uma gilete que você passa nas “partes” já te deixam um pouco melhorzinha. Só nessa brincadeira já avançamos duas casas em direção ao "ajuntamento".

Terceiro: quando estiver montada, vá pra rua, cheia de confiança na escova e faça aquele ar blasé pras pessoas. Porque, né? Andar por aí com cara de “procuro um homem desesperadamente” só vai botar todo mundo pra correr. Faça pose e acredite na foto, fia! Mais quatro casas.

Quarto: junte um par de amigos legais. Mas nada de montar caravana de ajuntamento. De desesperada, basta você. Dê preferência a amigas com namorados não-ciumentos que as deixem sair com você. Inserir no grupo um amigo gay também ajuda. Não muito afeminado, para poder passar por peguete, caso precise provocar ciúme em alguém. Vá para um barzinho tomar umas biritas, ficar colocada. Quando chegar a um nível okay de colocação, comece a distribuir piscadelas para as pessoas. Homens são presas fáceis, fia. Espera-se, que nessa fase do esquenta, você já saia com alguns telefones a mais na agenda.


Quinto: o fato de você ter conseguido trocar telefones vai te deixar bem felizinha (barangas também são presas fáceis de contentar). Então pega essa alegria e te joga numa pista de dança onde tenha música boa. Dê preferência às que tocam música de cantar. Tome bastante água para não bancar a louquinha do vômito e seja bem feliz.

Não sei tu vai conseguir um "pretê", mas certamente um "trepê" para uma noite tórrida é quase garantido. E, convenhamos: para um fim de semana de sol, luz e calor como este, não vai cair nada mal.

Ooops. Acho que aconselhei errado, né? Acabo de ensinar à pobre como cair na gandaia e não recomendei um “exercício para quem não consegue ajuntar”. Enfim. Essas dicas pelo menos vão garantir a ela um bom aquecimento.

Tuesday, August 25, 2009

A professora e a mandala

Comecei um curso de relações internacionais numa faculdade macanuda daqui de Sampa. Já que virei oficialmente um jornalista de economia/negócios, achei que era hora de ampliar um pouco meu background. Então lá vou eu ter aulas sobre coisas cabeludas que jamais vi na vida, como uma disciplina chamada “Padrões jurídicos do comércio internacional”. Oi? Oi-oi?

Estávamos todos sentados esperando a professora. Ela chega pontual, nove da manhã. Quer dizer, primeiro entrou na sala o seu ego inflado. E, em seguida, a professora per se. Vestia terninho cinza, óculos vermelhos fazendo par com as unhas, também vermelhíssimas (certeza que ela tem um óculos para cada cor de esmalte) e uma mandala gigante no pescoço. Ela se coloca na frente da sala de aula com a coluna ereta, mãos entralaçadas e começa:

“Oi, gente. Meu nome é Fulana de Beltrana Cicrana. Sou doutora em direito internacional pela Universidade de Londres. [pausa para um ligeiro espasmo]. Também tenho mestrado em direito pela Universidade de Chicago. [pausa para ajeitar o cabelo Seda Ceramidas] Eu sou professora titular das disciplinas de direito internacional aqui na Universidade X [pausa para uma revirada de olhos] e na Inglaterra, na Universidade Y, disciplina que eu ministro em inglês, claro [pausa para tossezinha]. Meu doutorado abordou as cláusulas...”

Ficou dez minutos vomitando seu currículo lates e se contorcendo tanto, mas tanto, que parecia que estava sendo chupada. Cara, incrível o que faz um doutorado. Algo tão trivial quanto dizer o que fez da vida torna-se um momento orgásmico na vida da pessoa.

Enquanto falava, fazia questão de mostrar por A mais B o abismo intransponível de livros lidos, aulas assistidas e teses defendidas que a separam da escória da humanidade – no caso nós, alunos. Aumentou ainda mais esse abismo o fato de ela falar cinco línguas, sendo duas delas não-triviais e uma que utiliza o sistema de ideogramas. E como se não bastasse, a bisca tinha um par de coxas bem saradas fazendo o contorno debaixo das calças para mostrar que “sim, além de ter lido 158 mil livros a mais do que vocês eu também tenho tempo de malhar minha bunda”. E, o arremate final: ela não tem nem 40 anos de idade! Não sei como ela conseguiu fazer tudo isso com tão pouca idade. Acho que o segredo é a mandala no pescoço.

Uma pessoa inteligente sempre tem um charme especial: fato. Uma pessoa inteligente E bem vestida E malhada E com títulos tem ainda vários plus a mais, digamos assim. Fato também.

Mas há um PORÉM bem grande: uma pessoa inteligente, sarada, jovem, que sabe combinar cores e ornamentos sem se tornar cafona perde toda a sua graça quando é uma esnobe escrota. FAIL. Fail, fail, e fail.


De que adianta doutorar-se em direito internacional e o caralho, mas não saber ser gentil e agradável? Ao querer se distanciar dos meros mortais, ela desaprendeu a ser gente. Tornou-se uma professora até boa, mas ficou in-su-por-tá-vel como pessoa.

Vai ver por isso o dedo anular dela não tinha nenhuma aliança: primeiro, porque não há cristo que aguente alguém assim. Segundo, porque ela já está casada - com o próprio ego. Até que a morte os separe.

Friday, August 21, 2009

I'm here for you, Izzie Stevens

Há duas provas claras de que além histérica, obesa e rasa, a sociedade americana ficou completamente doente. A primeira está na edição impressa de qualquer revista de notícias, como Time ou Newsweek: 80% dos seus anúncios são de remédios. A segunda prova é a obsessão dos americanos em programas que se passam em hospitais ou falam sobre saúde.

Com exceção de House, eu não gostava de nenhum seriado de hospital. E.R. nunca me falou ao coração. Mas recentemente peguei gosto por Grey’s Anatomy. E nem te conto por que. Mentira. Conto, sim. Por causa das chamadas do programa na Sony. Eu parava qualquer coisa que estivesse fazendo quando passava o comercial deles. Que não tem nada de extraordinário, é altamente apelativo e tem todas as frases de efeito que se possa pensar. Mas me pegou, né? Sou de carne e osso. Quando eu me dei conta, estava sem piscar na frente da TV, me envolvendo com as desgraceiras dos médicos fictícios.

Eu-coração-Izzie Stevens.


Isso mesmo. Este post, que começou politizado, não era sobre a sociedade americana, mas sobre meu gosto recém adquirido. E termina aqui, repentinamente e sem conclusão alguma.

Se tu quiser saber do que estou falando, o comercial está logo abaixo.

Wednesday, August 19, 2009

Paulistanos versus gaúchos

Estávamos num restaurante finesse dos Jardins. Eu e uma fonte chatérrima. Daqueles paulistanos que acham que não existe mundo fora de São Paulo (quando todos sabem que existe, sim: o Rio Grande do Sul).

Conversando amenidades para quebrar o gelo, a pessoa começa:

- E você é do sul, néam?
- Éam.
E dá-se início à palhaçada. Quando as pessoas não têm assunto, elas falam sobre diferenças culturais e vocabulários regionais, como “negrinho” (brigadeiro, em gauchês), “cacetinho” (pão francês), e afins. Preguiça blaster. Decido abstrair e me jogar no buffet de comida, que estava com uma cara ótima. Larica de malhação, saca? Saí da ‘cadimía e não consegui tomar café da manhã.

- O sotaque não engana. Está aqui há quanto tempo?
- Há quase cinco anos.
(e essa lasanha tá boa? Tô pensando em pegar na segunda rodada. Vai haver segunda rodada, certo?)

- Mas antes disso você morou onde, no Rio?
- Não. Não morei no Rio.
(Um conselho: não vai no frango. Tem curry demais. Como os garçons são demorados aqui, hein? Môuço
, me vê uma Coca light-gelo-e-limão?)

- Morou em Porto Alegre?
- Não, não. Saí da minha cidade e vim direto pra cá.
(desculpe aí. O ossinho do frango. Rê, rê, rê)

- Ah, é? Veio do interior do Rio Grande do Sul para São Paulo?
- É. Isso mesmo.
(e pode parar com o tom irônico. Porque eu puxo minha navalha e te retalho a cara, hein? Falar mal de cidades alheias é como falar mal de família: só a pessoa pode maldizer a sua. Não os outros)

- Deve ter estranhado no começo, né? Aqui na megalópole...
- Nem! Duas semanas e eu já estava me sentindo em casa.
(Se você acha sua megalópole tão incrível, vamos brincar de quem tem números mais altos, São Paulo ou Rio Grande do Sul? Puxo umas tabelas do IBGE e a gente pode se divertir comparando: educação, qualidade de vida, segurança. Quer? Não, né? Não vale a pena porque São Paulo sai perdendo horrores)

- E trabalhou onde antes na imprensa? Em jornal?
- Não. Sempre trabalhei em revista desde que me formei.
(Ai, ai, será que como sobremesa? Oh, what de fuck, eu acabei de sair da convalescência, preciso me alimentar bem)

- Mas nem em jornal?
- Não!
(caralho, que pentelho! Chega de perguntas. E passa já pra cá essa lasanha se tu não tá comendo. Porque eu estou é muerto de fome)

E enquanto ensaiávamos conversar, aos trancos e barrancos, eu não sei se por azar, se por inimizade, se por vingança, se por nervosismo, se por guerra fria (aquela coisa ‘eu te odeio, mas não declaradamente’), ele esbarra na minha recém trazida coca light-gelo-e-limão e derruba o copo INTEIRO em cima de mim. Inteiro. Não sobrou uma gota.


Aí foi aquele bafão de novela: levanto rápido, falo um palavrão, milhões de pessoas olhando, o cara fica über constrangido (ou finge ficar) e começa um rosário de “me desculpe!!”, o garçom corre com toalhas pra me secar (sim, o lerdo se mexeu) e eu naquela dignidade imensa, né, minha gente, de ter a camisa e a calça grudando na barriga e nas pernas.

Abreviamos o almoço e, no final, o sujeito tem a pachorra de me dizer:
- Esse almoço foi inesquecível, hein?

Aham, foi. Certeza que ele derrubou a Coca por bairrismo e ódio aos gaúchos. Ponto para ele no quesito cretinice. Mas se eu puxar as tabelas do IBGE...